quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

caracol




Pronto.
Cortei.
Cansei desse jeito desengonçado
Desalinhado
Enfim
desajustado
Que cai sem jeito ou vontade
Por cima do ombro.

De coisas tortas e revoltas, ah
Essas já tenho com gosto!
E sabe de uma coisa?
Esse jeito prepotente de sair se enroscando
Em tudo quanto é coisa e gente
Já me tirou a paciência e a postura, juro.

Sem falar na arrogância de acreditar
que Caetano quer contar dos seus problemas.
Mas vai, tudo bem
Coisa de criança.

A verdade mesmo é que cansei do tom.
Castanho é essa coisa pela metade,
Nem dia
Nem noite.
Chega de indecisão!

E se acontece de acordar assim
Da pá virada
A cisma é ainda maior e arraigada.
Não gosto desse jeito deles
De denunciar
Os sonhos roucos
E as horas poucas.

Mas aí acontece deles virem mansinho
Me enrolando com seu carinho
E me enroscando em suas vontades.

E vem me dizer que, de todo jeito
Não há trabalho feito,
Caráter leigo,
Olho suspeito.
Que isso aqui é liberdade.

Ouro Preto, 17 de janeiro de 2013.


P..s.: Sem rima, metro ou razão. Mas,  perdoem! Também há muito tempo não rabisco (arrisco) um poema. Ou talvez nunca tenha aprendido!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Ex-alunos e moradores da República Sinagoga compram casa para cumadre


Ex-alunos e moradores da Sinagoga reunidos no dia da mudança


Na manhã de um sábado após uma ida ao CAEM, os moradores e ex-alunos da república Sinagoga tinham uma importante tarefa. Realizar a mudança da cumadre Dercília de Oliveira Santos para uma pequena casa no bairro Veloso. Localizada no alto de um morro, a casinha da cumadre foi escolhida por um átimo do gosto: é essa mesmo!

A história da casa pela qual Dona Dercília diz ter se apaixonado começa no dia em que comentou com os rapazes da Sinagoga que gostaria de comprar um lugar para morar. Inicialmente, eles foram em busca de um financiamento na Caixa Econômica Federal. Enquanto Dercília procurava a casa que adquiriria, os sinagoganos, denominação dada aos membros da república, uniram-se e apressaram-se para arrecadar o dinheiro da compra. Em menos de seis meses atingiram o valor necessário.

A cumadre Coró, como também é chamada, parece ter olhos de vigília para cada detalhe que a cerca. Traz na memória o dia exato em que chegou à república Sinagoga: 14 de novembro de 1994. 
A figura atenciosa e materna de Dona Dercília esteve cuidando de dezenas de meninos durante os 16 anos em que viveu na república. Desde o dia em que chegou, conviveu com mais de vinte ex-alunos, além dos muitos que passaram por lá.

Se Dona Dercília dispensa carinho e vigília diários aos seus meninos, para ela não são oferecidos cuidados diferentes. É lembrada no dia das mães, quando adoece, a cada hora em que um acorda ou sai.
Em um tempinho de prosa na sala da Sinagoga ela nos conta aos risos do dia da mudança. Depois de um CAEM e embaixo de sol a pino, as primeiras coisas lembradas para serem colocadas nos ombros ao subir o morro foram o fogão, o gás, o torresmo e a pinga.

Dona Dercília tem agora a casa que escolheu para morar. Depois disso, muitos almoços e “gólos” foram feitos no alto daquele morro no Veloso. Mas o aviso vem logo, sem acanho e sincero: sua casa mesmo é aquela de número 150 na Rua das Mercedes. A república Sinagoga.

Ouro Preto, novembro de 2010.

domingo, 25 de novembro de 2012

desvio

Eram 4h30 e já levantara. Tinha o espasmo periódico do trabalho diário e das distâncias a percorrer. Lavou a cara e deixou ir pelo ralo os calos de uma noite mal dormida. Penteou o cabelo com a paciência de pretextos ou esperas, as crianças ainda não haviam acordado. Fio a fio, tentava desemaranhar as perguntas dos que iam a seu trabalho, ignorando sua presença como se se preparassem para um encontro maior, e questionavam sobre o valor metafísico da arte.  Não sabia o que era essa tal de metafísica. Entendia de metas, e jurava que muitas vinham da alma da gente. Certa vez bateu-lhe no peito a promessa do amor. 

Ainda que não compreendesse os princípios pelos quais se fez chegar ali, e não à casa de paredes brancas e janelas azuis pela qual sonhara a vida inteira, não faltaria amor a quem lhe conhecia do avesso: Tiago e Raimundo. Há de ter maior importância, pensava. O relógio apressava 5 horas, as dúvidas teriam de ser enroladas e presas. Fica pra depois.

Vinte minutos à frente o filho acorda com urgência de mãe. Trazia o corpo ainda preguiçoso de sono, mas os olhos escancarados pareciam bater asas. Correu pelo barraco vasculhando, procura rápida para um cômodo que servia de casa inteira. Mas latões e prateleiras são gigantes diante 9 anos e o medo de esquecer o sonho que precisava contar a mãe. Puxa vida, se Tiago não cismasse contar a coleção de pedras até tarde o sonho tinha durado menos e dava tempo de contar! Depressa lhe veio um jeito de guardar o segredo até oito da noite, hora de ter colo e promessa: catou uma pedra vermelha da coleção e rabiscou, imitando, o pássaro do sonho atrás da porta. Assim não esqueço.

Esperava. Enquanto isso, chuva. Pra ele a casa parecia um tambor. Tinha medo da chuva entrar dentro deles, de tão alta e perto. Pra afastar os sustos conversava com ela. Mãe dizia que a chuva também se sentia sozinha, e que era companhia pra gente. Foi se lembrando que a mãe contava que um lugar onde trabalha é todinho vermelho. Ele ria de desacreditar. Todinho assim, feito quando cortou o dedo brincando com Tiago e levou bronca? Todinho vermelho, como quando tio José derramou lata de tinta em cima da estante! Estremeceu com a revelação que veio de súbito: o pássaro vermelho havia fugido de lá pra dentro do seu sonho. Depressa levantou-se e saiu de dentro da minha cabeça. É  17 de novembro de 2011 e em fremes de segundo saí do Centro de Arte Contemporânea Inhotim enquanto visitava a Galeria Cildo Meireles para encontrar o menino dos vacilos da minha mente.

Diz a física que, devido à invariância da velocidade da luz no vácuo, e, admitindo um emissor e um receptor em repouso relativo, um raio de luz é captado como uma cor padrão em função de sua frequência. Se o emissor, a fonte, se afasta do receptor observador, o intervalo de tempo que este mede entre duas cristas consecutivas de onda aumenta, observando um desvio para a gama de cores de mais baixa frequência, fenômeno conhecido como desvio para o vermelho.

Há de ser essa mesma invariância de tempo e luz que criou em mim a imagem, quase tão palpável quanto os objetos do quarto, que responderam a passos imaginativos a ausência de um pássaro na gaiola pendurada na impregnação de Cildo. Voara para o sonho de um menino.

Nesse exato ponto, fugidio para os olhos da razão física mas completamente plausível para as permissões da arte, a onda de luz desviou-se atravessando os espaços contíguos instalados na galeria de Cildo Meireles  e adentraram um barraco localizado em Brumadinho, violando com um pássaro o sonho de um menino e os fazendo vermelho, para sempre.

Entrar nesta obra é quase uma violação do corpo, que se expande e se faz refluxo naquilo que nos usurpa diariamente, os objetos ali postos. Impregnados, fazem a lógica galopar e retornar em becos de cantos ao único ponto do qual não se pode fugir: vermelho. Há algo de intrigante e, ao mesmo tempo, habitual ali. É como ver continuamente o reflexo do reflexo. O cansaço vem de olhar e enxergar sempre a si. Talvez, o ponto do qual não se possa fugir seja este: eu.
  




sábado, 24 de novembro de 2012

o homem que virou pipa

Trazia no rosto a angústia de afetos desdenhados e a esquálida aparência da sarna. Possuía um andar manco, como se carregasse nos ombros toda a merda do mundo. Por muitos anos, haveria de se lembrar do dia em que imaginou que sua surrada pipa pudesse se transformar em pássaro. Lembraria disso, como um calo da memória que imputava aos olhos a doença de sonhar.

Não tinha mãe. Apenas a sensação de ter tido o ventre amputado do avesso. “Mulher morre ao tentar proteger filho de bala perdida no morro”. Às vezes a doença dos olhos cismava, e ele esquecia o azedo sufocante do latão em que fora encontrado e o qual o impregnava as narinas e os ossos, até o dia em que percebeu um estranho formigamento na alma. 

Tinha 33 anos. Idade na qual todos os homens atribuem a si o Cristo da justificativa e do legado terreno. Ele, apenas atribuía a si o propósito nato entranhado na carne de fazer ferir e apodrecer tudo quanto lhe nascesse no peito. Achava a Campanha da Fraternidade indigesta e mais uma babaquice que se tentava vender pela televisão e que poucos poderiam comprar. Era imune a todos os apelos.

Não sentia o tempo passar. Achava que era como ele, manco. Porque todas as horas tinham a estranha aparência do retorno e se calcavam nas paredes e nas goteiras que ele consertava mas que - porra! – voltavam a dar marteladas na testa enquanto dormia. Talvez por isso não sonhasse nunca.

Um dia as marteladas foram mais fortes e o hábito não mais pode fazê-las irrelevantes. O peso do tempo envergou-lhe as costas ao ponto de transformar-se em pedra, como um rei. Foi o dia em que percebeu uma coceira que vinha de dentro e que parecia vir da pressa de sentir. Sem presságio, arrebentou-lhe no peito um pássaro. E o resto é silêncio.

Ouro Preto, 2011.

domingo, 24 de julho de 2011

Mito Mídia

A mídia possui um caráter que pouco percebemos ou nos importa. Narcotiza ironicamente gentileza e altruísmo social em reportagens que colocam em júri – popular, ético ou empresarial? – os acontecimentos sobressalentes na seleção da imprensa. Seja feita a justiça. Na edição de 11 de maio de Conexão Repórter, do SBT, Roberto Cabrini trata do mito Alani, a menina de sete anos que se tornou conhecida internacionalmente como a pequena missionária do Brasil. Com repercussão além do que qualquer criança poderia suportar, pontua sutil ou explicitamente Cabrini, em absurdos 35 minutos e 4 segundos, o programa faz ingenuamente um metajornalismo às avessas: explora até que ponto toda essa exposição prejudica a vida da menina.

Conexão Repórter se utiliza de edições primárias de corte, enquadramento e trilha, no intento de sensibilizar a recepção. Ainda que questões pertinentes sejam colocadas, não foge à característica de espetáculo, como taxa em alguns momentos os cultos religiosos. Eis o realismo fantástico da mídia! Quão piedoso e justo o programa é ao expor e enredar ao comando do sarcasmo inconsequente de Roberto Cabrini seus personagens em busca de audiência?

Não haveria nenhuma declaração autorizada socialmente – como a da Psicologia tomada como aval de suas acusações aos pais da criança – que vetasse a abordagem que Cabrini faz à Alani? Responda agora: até que ponto toda essa exposição afeta a vida da menina? Estará sendo a fé explorada? Tanto quanto tudo aquilo que a mídia manipula em prol do paganismo comercial.

domingo, 22 de maio de 2011

Em 1978 dois homens se beijavam e posavam para a pintura. Quando decidiram gritar, o mar rebentou.
Um homem pendurado na luz, outro na coceira infame do peito. Saíram de um instante fugidio do acordado. Haja coragem.
Arrastavam o mar no zumbido oco do ouvido. Mundo de esquecimento e retorno.
Foi o cavalo negro que entrou em seu quarto e enlouqueceu a ausência?
As horas tem postura de guerra. Uma mariposa arritmica engole o cavalo e seca o mar.
Suas mãos viraram ouro. Seus pés viraram ouro. Veio a mariposa e os fez gelo.
Mãos e pés rezando vigília na planície de Dalí.
Esse vento parece pedra. Clausura manca da hora. Clausura manca de Aleph.
Uk up!

domingo, 17 de abril de 2011

Os nomes de Realengo

Karine Chagas de Oliveira, 14 anos. Rafael Pereira da Silva, 14 anos. Milena dos Santos Nascimento, 14 anos. Mariana Rocha de Souza, 12 anos. Larissa dos Santos Atanásio, 13 anos. Bianca Rocha Tavares, 13 anos. Luiza Paula de Silveira, 14 anos. Laryssa Silva Martins, 13 anos. A mídia contradisse seu cálculo exato, estatístico, quando identificou o nome e o tempo das doze crianças assassinadas em uma escola da zona oeste do Rio de Janeiro.
A cidade de Realengo, local onde o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira voltou para disparar contra dezenas de estudantes suas armas, fez com que o 4° poder da sociedade – a Mídia – decidisse que a tragédia do Japão ou os confrontos entre árabes e israelenses perdessem categoria na hierarquização midiática.
Todos os veículos informativos do país retomam, dia após dia, o acontecimento de 7 de abril. Não parece haver empecilho algum ao entrevistar e expor as crianças sobreviventes ou os familiares que perderam as suas. O objetivo é informar?
A cobertura insistentemente progressiva cumpre apenas ao critério de anunciação – a promessa de novos detalhes sobre o caso - para que fidelidade da audiência seja preservada.
Talvez isso nos faça pensar que a atenção dada às crianças ou aos criminosos do nosso país só parta de uma tragédia de repercussão internacional. Para que Realengo seja esquecida (não acho que deva), basta que a mídia selecione os fatos e hierarquize nossa atenção novamente, de acordo com os valores que elege como ideais. E as crianças voltam a ser número: 12 mortos.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

murro em rédeas de aço
é o estar-te para o cortejo
o problema do teu coração é por ser feito de sal
ou memória?
desordem no controle adequado da composição
com posto severo de guarda
expostos os desvios
sobre oposto, justaposição.

terça-feira, 30 de novembro de 2010


recomendadíssimo.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Tato e potência artística explorados na oficina “Pigmentos e Tintas”

Antes de chegar ao Museu Casa Guignard, onde seria oferecida a oficina Pigmentos e Tintas, não portava endereço seguro e, portanto, minha pontualidade, objeto quase abstrato para o qual dedico atenção de acordo com minhas vontades, estava ameaçada.

Tinha uma pauta a cumprir e arbitrariedade alguma que partisse de mim pararia ou adiantaria os relógios. Duas horas da tarde, hora marcada para início da oficina e, no entanto, a porta continuava com a postura imperiosa de não oferecer qualquer fresta que autorizasse passagem.

Poucos minutos adiante, uma portinhola se abre embaixo dos nossos pés – sensação de ladeira – e podemos entrar no atelier instalado no porão do Museu. Me apresento a Attilio Colnago, artista plástico e professor da Universidade Federal do Espírito Santo, pedindo licença para adentrar no império de pedras que aquele porão/atelier simbolizava.

Com atenção quase infantil, vasculho o ambiente e tento traçar um itinerário dos objetos dispostos ali. Ao fundo um portão alto, de ferro, parecendo ser guardião do jardim que entrecortava com as grades pesadas. Um balão de junho esquecido sobre cadeiras; outro, preservando com faísca de lâmpada cores acesas, suspenso frente ao retrato do rosto que não se identifica.

Como se houvesse uma clarabóia natural, o centro do atelier era invadido por um azul de tonalidades controladas por marchas de nuvem. Desço das alturas do devaneio para o início da oficina. No primeiro dia, o qual me limito retratar, passou desde a Idade da Pedra a representações artísticas contemporâneas

Pintura e restauração: o sentido dos materiais explanou a sensibilização tátil frente a materiais oferecidos pela terra para a composição da matéria prima da construção de símbolos e conceitos, ora visionários, ora tradicionais, nas representações artísticas produzidas pelo homem.

A oficina propõe a discussão do que é o artista – ser abstrato e potente, vulnerável e imortal – e a exploração de texturas e pigmentos presentes em seu trabalho. Das poucas horas que tive da oficina que seguirá até o dia 23 de julho, não pude fazer cores, curiosidade inquietante agora, como idéia plantada pelo cal.


(todo escrito tem seu tempo do rídiculo para ter coragem de ser visto)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

patota


Escolha fazer parte de um lugar que fuja de todas as definições que tudo concluem e estigmatizam. Escolha avaliar cada gesto teu e colocar sentimento em cada ato. Escolha ser muitos e ter um pouco de você em cada pessoa com a qual vive. Escolha não ter uma rotina de ações ou de pensamentos.Escolha colocar o pé na eternidade.

Patotinha 32 anos. Pediremos bis e tudo será perfeito!

domingo, 1 de agosto de 2010

É como se alguém tivesse ousado colocar as coisas sublimes e marmóreas em desassossego. Sinto infantilmente uma fé acuada, que tenta se apegar a qualquer coisa que esteja fora dos engasgos da minha cabeça. E o único som que vem e me pontua, como socos blasfêmicos na boca do estômago, é o da terra proibindo senti-lo de novo. Acostuma-se,isso é fato. Mas a gente também morre um pouco.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Fazendo estrada no ar da imaginação "Rádio Osquindô" leva a infância para o infinito


Corrente que prende gente / quem tem medo sai da frente! Pequenos iam e viam numa ligeireza só, entrecortando a fila para o show da “Rádio Osquindô”, realizado pela Cia Lunática, às 18h do domingo (18), no Teatro Ouro Preto.

A “Rádio Osquindô”, transmissão imaginária que tem como interferência palmas e gargalhadas, tinha todos os elementos do palco e da platéia coreografados: lamparinas suspensas acendiam e apagavam como se brincassem de ser vaga-lumes enquanto mãos e pés batiam no compasso que pedia a música de abertura.

Guitarra, baixo, bateria, percussão e voz imitavam trovoada e trem no misto teatral e sonoro que é a apresentação da Rádio Osquindô. O palco é uma brincadeira montada por cores, luzes e apetrechos jocosos. Nem todos resistem em não adentrar nessa fantasia: um menino salta para o mundo lúdico que era representado.

Cantaram a infância com a saudade que levam as pipas, em plano aéreo do tempo que nos faz crescer – alturas longínquas – e com a pequeninice das formigas, de posse do dom natural de apropriar-se do que nos escapa aos olhos para a criação de universos.

Ao cantarem Borboleta, de Marisa Monte, uma pequenina vestida de branco e com asas com brilhos de lantejoulas foi saudar o público rodopiando e ensaiando um canto tímido de menina, mas que levava a coragem de ser ouvido por dezenas de pessoas.

O grupo da Rádio Osquindô é formado por seis adultos que pegaram carona em uma cauda de cometa e decidiram que viver no mundo da lua, onde não há restrições para sonhos fantásticos que se põem fora da órbita do mundo de “gente grande”, é conservar-se criança e feliz. Me parece que aquela gente grande que estava em cima do palco pensa como Manoel de Barros, que olha as coisas de azul, "que nem uma criança que você olha de ave".

terça-feira, 13 de julho de 2010


O cortejo “Somos todos Chico-Rei – Circo Arte – Educação e Cidadania” abriu às 15h20 da última quinta, 8 de julho, o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2010. Do Largo do Cinema ao terminal de integração José da Silva Araújo, “Zé Duca”, inaugurado às 16h30 do mesmo dia, os Franciscos fizeram “o Brasil subir a ladeira” em tom compassado e policromo.
Guerreiros vibrantes, levaram em ritmo de chão e de altura as memórias da escravidão e da liberdade. Da janela da Rua Teixeira Amaral, um homem, uma mulher e um pássaro assistiam a música que corria, vinda de trás. Palmas em espreita, viam a menina que pisava em mãos.
E foram também ritmo mar, em vento vermelho de asas de pano, reverência à cor e coroa em estandarte. Menino, preste atenção, pediam para em fala grave, de marcha, dizer da força do Chico de Francisco, Chico-Rei, e dos filhos da África.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

desfoque policromático

vindo da cegueira cínica da refração

fração trapo de tempo tato

que em língua ancestral esmiúça

usa

lanterna epidérmica

365 voltas

bis

61

21

volta

assoalho de osso

toque oco diário compasso

como é que eu faço?

válvula de alma ininterrupta

peso pedra em Rio

fato

com tudo, reverbero

quarta-feira, 16 de junho de 2010

a coisificação do corpo


O corpo é interpelado a identificar-se. Portar-se.Consumir.Defecar. O corpo é voz, é gesto, é o que você é. Seu almoço, seu desgosto, sua fama. Traz o legado de eras do mundo. Geneticamente escapou do sagrado e andou à luz da Razão.O corpo é coisificado, etiquetado. O corpo é movimento compassado. Corpo público, ético.Corpo fotográfico, acadêmico, líquido. Decorado. Copiado. Corpo anunciado. Publicado: obituário.




Trabalho transdisciplinar da turma mais relapsa de jornalismo.

quarta-feira, 5 de maio de 2010


tenho formiguinhas nos pés...e no coração.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Não, não aceito a carona, meu senhor. Não quero com sorrisos e acenos de cabeça rítmicos dar a complacência do interesse por coisas que em 3 minutos esquecerei. É um ciclo. Quero no silêncio e na sujeira do ponto de ônibus degustar o peso enjoativo do estômago e do peito. A falência das crenças. Suicídio. Me sinto péssima. Minha casa parece de ouro e eu o mendigo imundo em reverência.

quinta-feira, 8 de abril de 2010


Estou com princípio de pneumonia e me tornei uma burguesa, não tiro minhas meias dos pés!
Pelo menos essa enfermidade me dá sol no colchão no quintal de casa, cappuccino, filmes que são "ICHS demais", segundo as minhas patotas amadas e que adoram me pelar o saco, e pequenos paparicos.
Mas me tira o momento quase sublime, por sua raridade, de ouvir rock no CAEM e ir pra Viçosa de carona.
Confesso também que resistir ao choconhaque que vai rolar na Patotinha hoje vai ser muito, muito difícil!

p.s: Cena do filme "Meu irmão é filho único".
Há também "1984" (que deixou a Yara cabeça de borboleta apavorada e rendeu à Laís uma pessoa pendurada no seu pescoço de madrugada) e "Paradise Now", que veremos hoje.

quarta-feira, 7 de abril de 2010


Uma sala de aula nunca foi um ambiente que ela pudesse classificar como agradável. Não cabia naquela gaveta de gente, e mesmo as idéias que circulavam junto ao ventilador de teto lhe pareciam excessivamente impessoais. Assim dizia fulano, ciclano e beltrano. Segunda ela, quando era?

Mas havia um momento, sem a necessidade de sua permissão, que as idéias penduradas na hélice despencavam trazendo o peso de um soco no estômago: era a aula de cultura e identidade brasileira. Era a cisma natural das perguntas que ninguém tinha a valentia de pensar ou responder.

Diante da força das inquietações - e das cadeiras, mesas e quadros que se colocavam absolutos no consagrado habitat acadêmico – emudecia. O soco no estômago tirava-lhe a fala, mas de algum modo lhe fazia traduzir e proclamar as coisas de si de um jeito diferente.

A identidade, muitas vezes estupidamente erguida como estandarte de imposição do que teatralmente se é, aceitou travar diálogos com os fulanos e se compreendeu plural e não concluída. Talvez tenha adotado algo da estética do Bispo.

Estranho vício de ter as idéias desordenadas, violadas. Mas a abstinência vinda da constância que a perturbava mais além que a estabilidade a curou de certo modo de sua miopia.