quarta-feira, 7 de abril de 2010


Uma sala de aula nunca foi um ambiente que ela pudesse classificar como agradável. Não cabia naquela gaveta de gente, e mesmo as idéias que circulavam junto ao ventilador de teto lhe pareciam excessivamente impessoais. Assim dizia fulano, ciclano e beltrano. Segunda ela, quando era?

Mas havia um momento, sem a necessidade de sua permissão, que as idéias penduradas na hélice despencavam trazendo o peso de um soco no estômago: era a aula de cultura e identidade brasileira. Era a cisma natural das perguntas que ninguém tinha a valentia de pensar ou responder.

Diante da força das inquietações - e das cadeiras, mesas e quadros que se colocavam absolutos no consagrado habitat acadêmico – emudecia. O soco no estômago tirava-lhe a fala, mas de algum modo lhe fazia traduzir e proclamar as coisas de si de um jeito diferente.

A identidade, muitas vezes estupidamente erguida como estandarte de imposição do que teatralmente se é, aceitou travar diálogos com os fulanos e se compreendeu plural e não concluída. Talvez tenha adotado algo da estética do Bispo.

Estranho vício de ter as idéias desordenadas, violadas. Mas a abstinência vinda da constância que a perturbava mais além que a estabilidade a curou de certo modo de sua miopia.


quinta-feira, 18 de março de 2010

Aprenda já a perceber os sentimentos dos outros. E os teus...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010


Sentiu-se expulsa da cama pelo sobressalto dos pesadelos. Depois veio aquela dormência nas pernas, percebida sempre que achava ter por segundos o dom de prever catástrofes.
O dia inteiro então foi arrastado em meio ao calor, às paredes, ao tédio e a mesma dormência insistente nas pernas. Seu corpo era dado a expressar essas coisas; por vezes, sentia um formigamento nos pés, como se estivesse sendo pedida pra partir. Em momentos como esse, acostuma-se a ter a casa vazia.
E aí surge a formidável biogênese dos universos que se criam pelos cantos. E é prazeroso este pequeno controle vindo do som, dos objetos desordenados, porém sempre tão leais; e do meio tom no ar que preserva (como se luz deixasse as portas abertas) a autonomia e pessoalidade do seu universo. Mas sim, é preciso ter em mãos qualquer asa ou escada que dê conectividade ao que se sabe existir pela lucidez e pela evidência dos fatos. Por isso o som familiar, hóspede; e as expressões emanadas do corpo, ancestrais. O que fere abriga a compreensão que inutilmente, com êxitos esparsos talvez, busca quando está tudo claro e em movimento. Pois acostuma-se também com a casa cheia, mas é preciso que esteja vazia para que o corpo usurpe a função do verbo. E o resto se faz em companhia do universo que as formiguinhas dos pés tem o poder de carregar. E com as lâmpadas, acendendo e apagando.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ana Cristina Cesar


Estamos em cima da hora.

Daydream.

Quem caça mais o olho um do outro?

Sou eu admito vitória.

Ela que mora conosco então nem se fala.

Caça, caça.

E faz passos pesados subindo a escada correndo.

Outra cena da minha vida.

Um amigo velho vive em táxis.

Dentro de um táxi é que ele me diz que quer

chorar mas não chora.

Não esqueço mais.

E a última, eu já te contei?

É assim.

Estamos parados.

Você lê sem parar, eu ouço uma canção.

Agora estamos em movimento.

Atravessando a grande ponte olhando o granderio

e os três barcos colados imóveis no meio.

Você anda um pouco na frente.

Penso que sou mais nova do que sou.

Bem nova.

Estamos deitados.

Você acorda correndo.

Sonhei outra vez com a mesma coisa.

Estamos pensando.

Na mesma ordem de coisas.

Não, não na mesma ordem de coisas.

É domingo de manhã (não é dia útil às três da

tarde).

Quando a memória está útil.

Usa.

Agora é a sua vez.

Do you believe in love...?

Então está.

Não insisto mais.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009


"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

Clarice Lispector

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

sala de espera

do sobressalto de deixar o copo cair
foi vomitada de quatro séculos do fundo do corpo
frustrada, interrompida, aleijada
liga a lanterna do som
tentar achar-se
falho fato
de tentar com um clique
buscar as entranhas no vácuo
repertório rebatido
debate
entre o canto azedo da sala
e o teto aceso do corredor
regurgitada de sua redoma de possessão atemporal
angústia cuspida
capaz de fazer bater com a cara no chão